{"id":59524,"date":"2020-12-07T01:16:55","date_gmt":"2020-12-07T05:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=59524"},"modified":"2020-12-07T01:16:55","modified_gmt":"2020-12-07T05:16:55","slug":"a-ceia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2020\/12\/07\/a-ceia\/","title":{"rendered":"A ceia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"59528\" data-permalink=\"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2020\/12\/07\/a-ceia\/a-grande-ceia-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/a-grande-ceia-3.png?fit=506%2C253&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"506,253\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"a grande ceia (3)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/a-grande-ceia-3.png?fit=506%2C253&amp;ssl=1\" class=\" wp-image-59528 alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/a-grande-ceia-3.png?resize=346%2C173&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"173\" \/>1. A ceia<\/p>\n<p>A palavra. Forma estendida. Entendida e servida. Servida \u00e0 fome. A palavra ceia. Para matar a fome. O rito. Ritual da mesa. Posta. Ao redor os corpos. Organiza\u00e7\u00e3o do corpo-mesa. E nela eles. Objetos da nossa fome. Da nossa fome de significar. Estratos do nosso estar na mesa. Est\u00e1ticos. Calmos. Senhores do territ\u00f3rio. Da mesa posta. D\u00f3ceis. Todos. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o. Somos todos. Eles. Os objetos. N\u00f3s os sujeitos. S\u00f3 a rela\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a. O encontro. O agenciamento. Acontecimento.<br \/>\nAcontecer \u00e9 criar. Representar j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Exaurido o antigo ritual. A sacraliza\u00e7\u00e3o do objeto. Da palavra que recobre o fato. E tamb\u00e9m o fato que identifica o objeto. A coisa.<br \/>\nCartografar o movimento \u00e9 necess\u00e1rio. O fluxo do passo que se perde a espreita do sangue, do grito, do objeto outro e mesmo. Os olhos buscam ou s\u00e3o buscados. Atentos aos corpos das coisas que vibram perigosamente. For\u00e7as. Passos da indecis\u00e3o. A n\u00e3o-certeza \u00e9 bem vinda. O del\u00edrio da imagem em excesso. Sufoca\u00e7\u00e3o. Porre de cor,forma, utilidade, peso e medida. Imagem-pris\u00e3o. Como a palavra que a sustenta. Em fila. Em c\u00f3pias. Simulacros. A imagem morta na estante. Morta na indiferen\u00e7a dos corpos v\u00e1rios e tantos. Imagem-multid\u00e3o. Corpo-massa. Todos em rela\u00e7\u00e3o ao objeto. A imagem da for\u00e7a. Agora nova.<br \/>\nH\u00e1 uma fome. Vontade de pot\u00eancia. Corpo sem \u00f3rg\u00e3os. Ovo vibrante que n\u00e3o se permite delinear. Configurar. Resist\u00eancia.<br \/>\nH\u00e1 uma fome disforme. Dentes que buscam a pr\u00f3pria mesa. Antropofagia do objeto. Duplo roubo. Na mesa. Resistir \u00e0 mesa e sua circunstancia. Renegar a mesa e o territ\u00f3rio dado, posto. Pensar a n\u00e3o-mesa e o que dela n\u00e3o se pensa.<br \/>\nA ceia.<br \/>\nNa boca. Escorrendo inusitado a seiva de um outro objeto. De outra forma. Quebrando. O r\u00e9gio pensamento. O \u00fanico entendimento. Pulverizando o uno na possibilidade do absurdo. Na inten\u00e7\u00e3o da pervers\u00e3o. Perverter o corpo da ceia. Perverter o sentir da ceia.<br \/>\nDividir o doce bolo de nossos conceitos j\u00e1 prontos com serrote e for\u00e7a. A delicadeza do caos. Na boca. Sorver a do\u00e7ura do deslocamento do absurdo. O do olho desconfiado. Do nojo que se identifica. E pensar esse nojo. Pensar o deslocamento. Desterritorializar. Na bacia onde lavamos a cara, o rosto, a pele, a carne. Na bacia grotesca comer o p\u00e3o. Com a m\u00e3o. Com espanto. Espantar a forma\u00e7\u00e3o. A determina\u00e7\u00e3o. Renegar ent\u00e3o essa rima pobre. Eco. Despir o ego. O sujeito. A identidade.<br \/>\nO objeto vibra. Na mesa. E em cada boca. Rega uma possibilidade. A ceia jardim. Jardim do absurdo que cria pensamento que pensa o pensar.<br \/>\nA mesa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 limite. A mesa \u00e9 flu\u00edda. Dilu\u00edda na perversidade do deslocamento. \u00c9 linha a mesa. De fuga. Mesa de comer devires. Mesa de se abandonar em fluxos. Mesa de comer-se. Mesa de devora\u00e7\u00e3o de \u201ceus\u201d.<br \/>\nCada objeto \u00e9 um \u201ceu\u201d. Cada palavra que o significa \u00e9 um \u201ceu\u201d. E todos s\u00e3o pris\u00e3o em sua forma determinada. Em sua utilidade definida.<br \/>\nN\u00e3o mais. Agora o objeto \u00e9 possibilidade. Agora \u00e9 desconstru\u00e7\u00e3o. O objeto isento da media\u00e7\u00e3o do nosso gosto, sentido. Intelecto.<br \/>\nCom Alice. Sentar \u00e0 mesa do ch\u00e1. Com Artaud cuspir no buraco o sangue e o corpo morto da significa\u00e7\u00e3o. Com os Taraumaras dan\u00e7ar na borda do abismo. Mesa. Mesa abismo de sentidos. Mesa abismo da forma. Mesa-caos. Mesa-objeto sem \u00f3rg\u00e3os.<br \/>\nO objeto livre da palavra. A utilidade posta em jogo. Inutilizar o est\u00e1tico do pensamento. Da imagem.<br \/>\nMesa garganta. Mesa da devora\u00e7\u00e3o de nossas certezas congeladas.<\/p>\n<p>Bom apetite&#8230;<\/p>\n<p>Ronie Von Rosa Martins<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. A ceia A palavra. Forma estendida. Entendida e servida. Servida \u00e0 fome. A palavra ceia. Para matar a fome. O rito. Ritual da mesa. Posta. Ao redor os corpos. Organiza\u00e7\u00e3o do corpo-mesa. E nela eles. Objetos da nossa fome. Da nossa fome de significar. Estratos do nosso estar na mesa. Est\u00e1ticos. Calmos. 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