{"id":22152,"date":"2012-03-05T22:00:41","date_gmt":"2012-03-06T02:30:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=22152"},"modified":"2012-03-05T22:00:41","modified_gmt":"2012-03-06T02:30:41","slug":"quadro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2012\/03\/05\/quadro\/","title":{"rendered":"O QUADRO"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<dl>\n<dt><a title=\"Spotty\" href=\"http:\/\/foter.com\/photo\/spotty\/\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"foter-photo mceItem\" style=\"width: 100%\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/spotty.png?w=696\" alt=\"\" \/><\/a><\/dt>\n<dd><span style=\"float: right\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/82518118@N00\/\">&#8216;Playingwithbrushes&#8217;<\/a> \/<a title=\"Free Photos\" href=\"http:\/\/foter.com\/\">Free Photos<\/a><\/span><\/dd>\n<\/dl>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes de entrar ele pressentiu. Frio estranho lambendo o corpo. Arrepio bolinando a alma. Com calma. Mesmo assim entrou. Sempre entrava \u201cmesmo assim\u201d. E naquele dia resolveu ver. Observar. Coisas que n\u00e3o via. No c\u00e9rebro, algo sempre tilintava. Sinal? Tinha sempre a sensa\u00e7\u00e3o de que sua vis\u00e3o n\u00e3o era boa. De que n\u00e3o conseguia ver tudo. Olhava. Olhava muito. Para tudo. Tra\u00e7os, rostos, relevos, linhas, cores, \u00e2ngulos, texturas, estilos, \u00e9pocas, conceitos. Mas algo dentro dizia que alguma coisa estava errada. E ele decidiu.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 grande coisa,\u201d um amigo dissera. O outro \u201cque era mediano\u201d. Alguns, por falta de propaganda, m\u00eddia e badala\u00e7\u00e3o, negaram veementemente a inten\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o vale a pena, o tempo, o movimento, as cores, o coment\u00e1rio.\u201d Mesmo assim ele foi.<\/p>\n<p>E era estranho. Intrigante. O espa\u00e7o em que o quadro o corpo em tinta e tra\u00e7o olhava. Espa\u00e7o de brancura iluminista. Claridade anormal cegante-sufocante. Paredes nuas, expl\u00edcitas. E no meio de todo o nada &#8211; ele. O quadro. \u00danico.<\/p>\n<p>M\u00e3o e olho. Rosto sugerido, cores infringidas. Delirante pincel. Escuro e sombrio. Sombra e cor al\u00e9m da luz. E o olho branco. Vago. Profundo. Janela. E da m\u00e3o um furo. Outro rasgo. Outra brecha.<\/p>\n<p>E as linhas e os cortes. Tra\u00e7os que separavam ou juntavam peda\u00e7os. A imagem em constru\u00e7\u00e3o. Destrui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E ent\u00e3o a vis\u00e3o. Toda. Furiosa. Facho, fluxo. O olho no olho e ambos dentro e fora. O quadro e o corpo. Simbiose. Mergulho, naufr\u00e1gio no olho. Afogamento. Dan\u00e7a er\u00f3tica e lasciva com todas as sereias recusadas por Ulisses. Todos os caminhos e dimens\u00f5es sensoriais, corporais e t\u00e1teis experimentadas por Alice. Valsa fant\u00e1stica a bordo da nau dos loucos. Tradu\u00e7\u00e3o-devora\u00e7\u00e3o do verbo insano, do verso da n\u00e3o-raz\u00e3o. Antonin Artaud cuspindo saliva e sangue no buraco m\u00e1gico dos Taraumaras. Explodindo e desorganizando-se em corpo e mente. Cria\u00e7\u00e3o de outro mundo. Voc\u00e1bulo do al\u00e9m gram\u00e1tica. Janelas e mais janelas ao suic\u00eddio do lugar comum. Do senso comum. Corpos em queda. Livres. O inc\u00eandio de todas as roupas, de todas as m\u00e1scaras. Nero bondoso e fant\u00e1stico e sua lira. Insanidade mortal. Fogo. Roma e Tr\u00f3ia. Incandescentes.<\/p>\n<p>Na pausa que se fez. Do olho que ao fechar-se o mundo enclausurou, rio de sal aos poucos vazou.<\/p>\n<p>Dor, prazer, j\u00fabilo, raz\u00e3o?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m soube ou sabe ou saber\u00e1 motivo, id\u00e9ia, inten\u00e7\u00e3o. Mesmo assim ele levantou. E pelo olho do quadro nova dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da janela aberta em bra\u00e7os e asas saltou. Final. Ponto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8216;Playingwithbrushes&#8217; \/Free Photos &nbsp; &nbsp; Antes de entrar ele pressentiu. Frio estranho lambendo o corpo. Arrepio bolinando a alma. Com calma. Mesmo assim entrou. Sempre entrava \u201cmesmo assim\u201d. E naquele dia resolveu ver. Observar. Coisas que n\u00e3o via. No c\u00e9rebro, algo sempre tilintava. Sinal? 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