{"id":18027,"date":"2011-09-20T13:25:14","date_gmt":"2011-09-20T17:55:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=18027"},"modified":"2011-09-20T13:25:14","modified_gmt":"2011-09-20T17:55:14","slug":"verbo-suprimido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2011\/09\/20\/verbo-suprimido\/","title":{"rendered":"O VERBO SUPRIMIDO"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/rosto-de-senhor.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"18028\" data-permalink=\"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2011\/09\/20\/verbo-suprimido\/rosto-de-senhor\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/rosto-de-senhor.jpg?fit=700%2C468&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"700,468\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"rosto de senhor\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/rosto-de-senhor.jpg?fit=696%2C465&amp;ssl=1\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-18028\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/rosto-de-senhor-300x200.jpg?resize=300%2C200\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/rosto-de-senhor.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/rosto-de-senhor.jpg?w=700&amp;ssl=1 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Foi em um dia normal. Qualquer dia de normalidade pr\u00f3xima ao abismo. Mas normal. Todo o dia \u00e9 dia. E ponto. E acabou. O dia. No ponto. Exato ponto onde j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais dia&#8230; ent\u00e3o ele parou. Op\u00e7\u00e3o pensada. Doen\u00e7a cruel e irremedi\u00e1vel. Loucura advinda de genes moralmente abalados de um passado obscuro.<br \/>\nObscuro era o motivo, a raz\u00e3o da aus\u00eancia do verbo na boca de Ermiliano Girondino.<br \/>\nO sil\u00eancio, tal como dem\u00f4nio que possui corpo abandonado de alma, dominara todos os ecos e vibra\u00e7\u00f5es sonoras do corpo de Ermiliano. A l\u00edngua estava morta. J\u00e1 n\u00e3o havia sibila\u00e7\u00f5es, vibra\u00e7\u00f5es&#8230; como o demo, o som havia sido excomungado para infernos outros. As cordas j\u00e1 n\u00e3o vibravam nem tiniam.<\/p>\n<p>E assim Ermiliano, vulgo seu Liano, continuava sua vida, agora balizada por um sil\u00eancio que era seu, mas que por onde passasse mais sil\u00eancio assim somava o dele e o do outro e o daquele que ao n\u00e3o ouvir a voz alheia, cansado de a sua ouvir calava o som exterior e falava no c\u00e9rebro, pra dentro da cabe\u00e7a e a voz dormia na l\u00edngua que j\u00e1 n\u00e3o batia.<\/p>\n<p>Na rua, cumprimentava o povo com os olhos grandes e castanhos, e a intensidade e nuances determinava o humor de seu corpo e esp\u00edrito.<\/p>\n<p>A mulher, ainda longe da velhice, mas j\u00e1 bem distante da mocidade, nos primeiros tempos chorava e implorava para que ele falasse. Ele sorria. Mexia a cabe\u00e7a afirmativamente ou negativamente. Afagava carinhosamente o rosto da esposa e dormia sorrindo.<\/p>\n<p>No seu sil\u00eancio ela foi. Com a filha e o filho. Taxia na porta. Malas e maletas. Desilus\u00e3o e l\u00e1grima. Ainda na cama Ermiliano dormia. E no seu sono ela ia embora. A fam\u00edlia emudecera. J\u00e1 n\u00e3o havia mais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o resolveu que o escrit\u00f3rio n\u00e3o era adequado para o seu sil\u00eancio. Deitou na cama e fez a grande recusa. Desligou o r\u00e1dio. A televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia, percebido na aus\u00eancia que permitira a sua percep\u00e7\u00e3o, recebeu a visita de um colega de trabalho.<br \/>\nO outro falou. Falou. Argumentou de todas as formas e maneiras que p\u00f4de. Nada conseguiu. No telefone chamou outro amigo, e outro. Em seguida uma emissora de TV local estava no local. Todos falavam. Todos perguntavam. O verbo se enroscava entre as l\u00ednguas ferinas, libidinosas. O verbo lambia o sil\u00eancio de forma imoral. O verbo possu\u00eda. Estuprava, violentava. Polu\u00eda. Ar, rio, matas e c\u00e9rebros. O verbo se inscrevia nas \u00e1rvores e as apodrecia, infiltrava-se nas inten\u00e7\u00f5es e tudo deturpava ao seu interesse.<\/p>\n<p>Preso e de olhos esbugalhados diante daquele circo de horrores, Ermiliano pensava em chorar. Pensava em morte, suic\u00eddio. Seus olhos tentavam atrav\u00e9s de c\u00f3digos v\u00e1rios, nuances infind\u00e1veis se comunicar com os outros. Mas ningu\u00e9m ouvia os olhos de Ermiliano, ouviam s\u00f3 o que diziam. Comiam suas pr\u00f3prias palavras. Alimentavam-se da pr\u00f3pria carne.<\/p>\n<p>Fotos. Muitas fotos retratavam Ermiliano. A imagem. A imagem e o verbo infernal. Ambos em prol da representa\u00e7\u00e3o de Ermiliano Girondino.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era ele. Seu Liano que estava ali. Mas sua representa\u00e7\u00e3o. Resumido em pequenos textos, consumido em artigos pessimamente elaborados. Retorcido atrav\u00e9s de uma \u00f3tica doentia e perversa. Difamado em letras simpl\u00f3rias que constru\u00edam um Ermiliano buf\u00e3o e engra\u00e7ado. Um bobo? O verbo recortava o perfil. Definia o psicol\u00f3gico. A imagem, correndo atr\u00e1s, focava o olho excludente de sua vis\u00e3o parcial nos objetos que poderiam significar algo al\u00e9m do que significavam.<\/p>\n<p>A mulher foi encontrada para dar entrevista, ficara famosa. \u201cA mulher do homem sem voz. A mulher do homem mudo. A mulher do sem voz. A mulher do sil\u00eancio.\u201d E agora j\u00e1 n\u00e3o chorava. Falava. Possu\u00edda pelo verbo. Proferia frente \u00e0s c\u00e2maras fotogr\u00e1ficas e aos gravadores sua triste hist\u00f3ria junta ao marido.<\/p>\n<p>Rejuvenescera. Comprara roupas novas. De alma vendida. Como pr\u00eamio recebera as benesses da m\u00eddia. Dinheiro casa e alguns contratos.<\/p>\n<p>Sem o m\u00e9rito da defesa e ausente de voz verbal, Seu Liano foi colocado em um manic\u00f4mio. Louco.<\/p>\n<p>No primeiro dia t\u00edmido, mas j\u00e1 no segundo come\u00e7ou a grande revolu\u00e7\u00e3o. Coisa nunca antes vista. Falava com os olhos. E os outros entendiam. E tudo come\u00e7ou a silenciar. Vasto e grandioso. Denso e poderoso. O sil\u00eancio come\u00e7ou a tomar conta de todos e de tudo. E o verbo come\u00e7ou a ser esquecido. A palavra abolida.<\/p>\n<p>O manic\u00f4mio era como um grande \u201cburaco negro\u201d na rua, espa\u00e7o da anti-mat\u00e9ria, e logo em seguida toda a rua come\u00e7ou a emudecer. As pessoas j\u00e1 n\u00e3o queriam falar. J\u00e1 n\u00e3o havia interesse. O verbo do\u00eda, soava estranho em bocas que se contorciam e gargantas que se espremiam em guturais sentidos.<\/p>\n<p>Passado alguns anos um grande sil\u00eancio tomara conta de tudo, e o discurso agora era do sil\u00eancio. Os gestos eram mais bem entendidos, as express\u00f5es faciais estudadas e interpretadas, tratados sobre as nuances e significados do brilho dos olhos eram escritos.<br \/>\nAs proximidades eram mais pretendidas que as dist\u00e2ncias. Ent\u00e3o os manic\u00f4mios perderam sua import\u00e2ncia e Ermiliano voltou para casa.<\/p>\n<p>Foi em um dia normal. Qualquer dia de normalidade pr\u00f3xima ao abismo. Mas normal. Todo o dia \u00e9 dia. E ponto. E acabou. O dia. No ponto. Exato ponto onde j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais dia&#8230; ent\u00e3o ele parou. Op\u00e7\u00e3o pensada. Doen\u00e7a cruel e irremedi\u00e1vel. Loucura advinda de genes moralmente abalados de um passado obscuro. Obscuro era o motivo, a raz\u00e3o da presen\u00e7a do verbo na boca de Ermiliano Girondino.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o falou.<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi em um dia normal. Qualquer dia de normalidade pr\u00f3xima ao abismo. Mas normal. Todo o dia \u00e9 dia. E ponto. E acabou. O dia. No ponto. Exato ponto onde j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais dia&#8230; ent\u00e3o ele parou. Op\u00e7\u00e3o pensada. Doen\u00e7a cruel e irremedi\u00e1vel. Loucura advinda de genes moralmente abalados de um passado obscuro. 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