{"id":14739,"date":"2011-05-01T09:43:26","date_gmt":"2011-05-01T14:13:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=14739"},"modified":"2011-05-01T09:43:26","modified_gmt":"2011-05-01T14:13:26","slug":"pedro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2011\/05\/01\/pedro\/","title":{"rendered":"Pedro"},"content":{"rendered":"<p>Entre as m\u00e3os, pressionado pela estrutura f\u00edsica da carne, do osso que sustenta, mas tamb\u00e9m oprime por tamb\u00e9m ser obst\u00e1culo, peso, parede. Pulsava?  Prisioneiro do pr\u00f3prio corpo engendrado para si. O c\u00e9rebro.<br \/>\nNas m\u00e3os encharcadas, embebidas no suor das t\u00eamporas-nectar das d\u00favidas e ang\u00fastias, ele sentia, percebia a afli\u00e7\u00e3o de seu intelecto comprimido&#8230;<br \/>\nParedes&#8230; tudo eram paredes. Da carne ao tijolo. Tudo que prendia e resumia. Reduzia. Tudo eram paredes. Suas paredes.<br \/>\nNa escurid\u00e3o circunstancial do n\u00e3o olhar, ele percebia os vultos negros das nuan\u00e7as da pr\u00f3pria sombra que o envolvia e invadia. Possu\u00eddo pelo dem\u00f4nio da depend\u00eancia, filho maldito do torpor&#8230; atrelado estava \u00e0 rima simpl\u00f3ria, mas vital, da batida card\u00edaca.<br \/>\nTalvez se abrisse os olhos e enfrentasse al\u00e9m do seu rosto-m\u00e1scara de carne velha e dissimulada \u2013sua ess\u00eancia, sentido-alma que de t\u00e3o profunda jamais conhecera. Talvez na pele? Capacidade de se compreender?<br \/>\nMas o c\u00e9rebro. Abra\u00e7ado ao fr\u00e1gil cora\u00e7\u00e3o gritava-lhe do c\u00e1rcere onde se encontrava que compreender a si mesmo era coisa de coragem, de desprendimento. E eles eram fracos, d\u00e9beis na sua condi\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica. Vol\u00e1teis.<br \/>\nE a umidade das m\u00e3os agora ficava mais amarga, pois o fel de sua alma deslizava silenciosamente por sua pele.<br \/>\nQuanto tempo fazia? Quarenta voltas os ponteiros indiferentes da morte j\u00e1 haviam dado ao redor de sua cabe\u00e7a?<br \/>\nSair. Levantar.<br \/>\nTentava sem sucesso tais ordem ao prisioneiro conformado que se distanciava em uma valsa insensata de antigas e novas imagens-reais-ilus\u00f3rias, de frases ditas e outras nunca mencionadas. N\u00e3o havia resgate para o encarcerado que se implodia em incoer\u00eancias. A raz\u00e3o \u00e9 coerente?<br \/>\nEntre os dedos da m\u00e3o escorria sua sanidade, fluindo para o esgoto\/desgosto? Toda sua capacidade de percep\u00e7\u00e3o. Fronteiras ru\u00edam.<br \/>\nE as duas m\u00e3os que seguravam agora se chocavam d\u00e9beis, delirantes. Surdo aplauso seco. \u00danico. Ploft.<br \/>\nE ser j\u00e1 n\u00e3o era, agora, o que se fora outrora.<br \/>\nEnt\u00e3o abriu os olhos. No a\u00e7o do espelho seus olhos do outro o fitaram. De quem eram aqueles olhos cravados na sua carne. Aquela carne moldada em seu id\u00eantico rosto?<br \/>\nDe quem era o organismo tecido em seu espelho?<br \/>\nO que era aquele corpo que na realidade do espelho, na \u201cverdade\u201d do reflexo se escrevia, se inscrevia em seu texto. Sem nome e em desalinho?<br \/>\nNa ant\u00edtese que se instaurava se criara; e na mesma intensidade em que em volume, massa e peso se gerava tamb\u00e9m pelo olho &#8211; no a\u00e7o que o encarava \u2013 t\u00e3o simples e f\u00e1cil se rendia. No leito estranho do desespero se permitia outro sono de fal\u00e1cias. Sonhos?<br \/>\nDo outro lado da porta. Sons.<br \/>\nPorta? Lado?<br \/>\nEspalmada a m\u00e3o na parede fria. Realidade instaurada na solidez do pr\u00e9dio.<br \/>\nA mesma parede que esmaga tamb\u00e9m protege. O espelho sorriu. A carne ficou indiferente, intacta na ruptura interna da estrutura que se partia.<br \/>\nQual porta estava fechada? A porta da l\u00facida madeira? Que se abria de s\u00fabito unindo dimens\u00f5es fant\u00e1sticas de todos  os desatinos.<br \/>\nEstava nu. Desprovido dos panos. Encobrir as vergonhas. Nesta constata\u00e7\u00e3o eventual a carne se abriu em gargalhada infind\u00e1vel entre o espa\u00e7o do a\u00e7o do espelho e o reflexo do corpo. Carne entre o corpo de espelho e o reflexo do corpo.<br \/>\nSil\u00eancio!<br \/>\nS\u00e9rios se olharam \u2013 decr\u00e9pitos ambos.<br \/>\nNo ar do olho que se obsedrva dentro do seu mesmo olho, cicatriza o distante; mesmo que no pr\u00f3ximo olho que se v\u00ea diante, j\u00e1 se perca no profundo espa\u00e7o do que j\u00e1 fora antes.<br \/>\nNo piscar de ambos que se defrontam o que se alcan\u00e7a s\u00e3o s\u00f3 molduras&#8230;<br \/>\nCasado. N\u00e3o est\u00e1 preso. Casado. Alian\u00e7a no dedo. Dinheiro e roupa n\u00e3o.<br \/>\nOnde a sombra que se pretende homem? Na escurid\u00e3o deste apodrecer?<br \/>\nCorpo ereto. Alto. Esguio, curvo. Respira a densidade negra que o emoldura. Pretende um grito. Forte, sacro\/santo, mas e voz de onde?<br \/>\nCad\u00ea palavras nessa boca murcha que se costura. Onde atitude nessa massa p\u00e1lida que se constitui?<br \/>\nOnde a sintaxe da tessitura deste verbo que n\u00e3o se estrutura. Dessa frase que n\u00e3o se coaduna. Cad\u00ea a palavra que neste deserto subserviente se abandona?<br \/>\nNo olho do teu olho no reflexo do teu despojo, no c\u00e9rebro preso ao osso que o protege; congelas num segundo o tempo que te engendra; do materno ex\u00edlio ao parto onde te encontras. Olho  no olho no olho do teu pr\u00f3prio olho&#8230; Infindavelmente. Nesse espelho que n\u00e3o existe. Deste quarto que n\u00e3o desistes. Neste berro que ecoa.<br \/>\nA m\u00e3o cansada que no movimento se afoga na densa massa que te engole \u2013 escuro \u2013 onde tudo se confunde. Vago fundo do teu quarto nu. A chave solta pende morta no fio que a conduz a luz.<br \/>\nE no passo que teu peso grita noutro espa\u00e7o teu corpo afunda. No al\u00e9m da porta-luz.<br \/>\nLuz que te agride o corpo que reduz.<br \/>\nPardais cinzentos em bandos te observam atrav\u00e9s do vidro da parede. No muro que individualiza, singulariza os espa\u00e7os do mesmo. Delimitam os passos de cada um.<br \/>\nAbertos os vidros que iludem com as imagens das coisas. Respiras a terra.<br \/>\nTudo \u00e9 terra.<br \/>\nVestindo as roupas, vestia tamb\u00e9m seu nome. Novamente recriado a personagem para o dia. Pedro. Pedra que se submete ao form\u00e3o e ao martelo do escultor. Ao martelo.<br \/>\nA cada amanhecer  recriava-se novamente a entidade Pedro. Vestido como Pedro. Pensando como Pedro, agindo como Pedro. Falando. S\u00f3 lhe era permitido ser o n\u00e3o-pedro \u00e0 noite e s\u00f3. Quando despia-se do r\u00f3tulo que o algemava ao \u00edcone Pedro. Mas nem isso entendia.<br \/>\nPedro Salinas. Pedra de sal. Desmanchava na singularidade coletiva de todos. Que tamb\u00e9m se resumiam.<br \/>\nEm um passo de tempo em que sua forma, imagem e sombra tra\u00e7a, mente, c\u00e9rebro se afastam. Foge, mas em v\u00e3o n\u00e3o encontra alma alguma. Corpo e carne e osso que sustenta o vulto j\u00e1 bastam, fartam&#8230; ent\u00e3o parte.<br \/>\nMesmo sendo pedra consegue ser mais aus\u00eancia.<br \/>\nMassa de anti-mat\u00e9ria que perambula pelo universo. De qualquer folha o verso. N\u00e3o o que canta a dor e a idolatra, mas sim as costas. O resto de qualquer escritura. Sepultura?<\/p>\n<p>Findo o trabalho. Traz sua bunda magra e ossuda para o assento gasto da poltrona que lhe abra\u00e7a. Engole e consome.<br \/>\nClick. E faz-se a luz. De volta.<br \/>\nO calo.<br \/>\nN\u00e3o fala.<br \/>\nNada diz.<br \/>\nCalado retira o sapato.<br \/>\nNa t\u00e9rmica ainda \u00e1gua.<br \/>\nO mate?<br \/>\nMorto. Todos os sonhos.<br \/>\nSorve toda a amargura.<br \/>\nO calo lateja em sua profunda e singular sintonia.<br \/>\nRetira a meia. Entre o dedinho e o outro. Sem emo\u00e7\u00e3o. Com as unhas&#8230;<br \/>\nArrancado, desmembrado o inimigo. Tinge o dedo o sangue, tamb\u00e9m o p\u00e9 e o ch\u00e3o.<br \/>\nVai chover?<br \/>\nQuanto mesmo? Quarenta?<br \/>\nLevanta-se.<br \/>\n\u00c9 preciso fazer alguma coisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre as m\u00e3os, pressionado pela estrutura f\u00edsica da carne, do osso que sustenta, mas tamb\u00e9m oprime por tamb\u00e9m ser obst\u00e1culo, peso, parede. Pulsava? Prisioneiro do pr\u00f3prio corpo engendrado para si. O c\u00e9rebro. Nas m\u00e3os encharcadas, embebidas no suor das t\u00eamporas-nectar das d\u00favidas e ang\u00fastias, ele sentia, percebia a afli\u00e7\u00e3o de seu intelecto comprimido&#8230; Paredes&#8230; tudo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1454,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1003],"class_list":{"0":"post-14739","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-azares","7":"tag-ficcao"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/sfpCD-pedro","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1454"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14739"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14739\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}