{"id":12749,"date":"2011-01-18T18:02:37","date_gmt":"2011-01-18T22:32:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=12749"},"modified":"2011-01-18T18:02:37","modified_gmt":"2011-01-18T22:32:37","slug":"na-borda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2011\/01\/18\/na-borda\/","title":{"rendered":"Na borda"},"content":{"rendered":"<p>Depois de ralar o joelho no muro e por fim em p\u00e9 na borda, equilibrando o pequeno corpo entre o cair e n\u00e3o; de bra\u00e7os abertos respirando fundo, teve a primeira vis\u00e3o do mundo al\u00e9m dos limites do p\u00e1tio. <\/p>\n<p>E os olhos-brilhando luz e festa e medo, puderam ver. O depois. O depois de tudo que at\u00e9 agora n\u00e3o podia. O muro era alto. E uma brisa gelada e arrepiante o deixava vibrante, corpo em \u00eaxtase.<\/p>\n<p>Era o momento em que os pais n\u00e3o estavam. M\u00e3e na escola e pai na f\u00e1brica. E ele ali.<br \/>\nSenhor do muro. Dono da amplid\u00e3o da imagem. Senhor do que cabia em seu olho. Olho devorador de sonhos e imagens. Olho que consumia casas, ruas, distantes \u00e1rvores. Olho que ouvia. Olho que falava. Era s\u00f3 olhos. Uma vis\u00e3o que se expandia, dilatava para todos os lados e dire\u00e7\u00f5es. J\u00e1 n\u00e3o havia um corpo. Agora era s\u00f3 o ver. Empanturrar-se com as cores, os movimentos, os barulhos e delirar com as possibilidades do al\u00e9m muro.<\/p>\n<p>O joelho do\u00eda. Mas n\u00e3o importava. Era o sacrif\u00edcio. Era a paga. O sangue, o esfor\u00e7o. Nenhuma vit\u00f3ria deveria ser f\u00e1cil. Todos deveriam ralar o joelho, esfolar as m\u00e3os no esfor\u00e7o de galgar outros espa\u00e7os, outras vis\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o saia, dizia o pai. \u00c9 perigoso, dizia a m\u00e3e.\u201d E ele obedecia. Sempre obedecia. Era obediente. Bom filho. Mas estava cansado. Sua vis\u00e3o era resumida, determinada pelo muro. Alto muro que protegia tudo e todos. Amigo?<\/p>\n<p>\u201cPra que t\u00e3o alto m\u00e3e?\u201d \u201cProte\u00e7\u00e3o meu filho, prote\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d E afagava satisfeita a cabe\u00e7a do menino. A bola que chutava nas paredes j\u00e1 perdera a gra\u00e7a. Movimento espelhado de ir e vir. Reflexo. Os brinquedos&#8230; sua imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o suportava mais brincar de carrinhos. Estradinhas e essas coisas. Caminhos exatos. Chutou os brinquedos. Dentro da casa a tia. Senhora idosa e obesa. Rosto vermelho cabelos fartos e risada gostosa. Mas agora dormia. Ela sempre dormia. Adorava televis\u00e3o \u2013 para dormir. Hipnose. Era apertar o bot\u00e3o e em seguida ouvia-se o ronco. Foi quando ouviu o ronco que saltou no muro e ralou o joelho. <\/p>\n<p>Tinha oito anos. Agora tinha quarenta e dois. E de bra\u00e7os abertos respirava o mundo. Profundamente.<\/p>\n<p>Ainda morava na mesma casa. Heran\u00e7a. A mulher n\u00e3o gostava. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o. Mas adorava a borda daquele muro alto. Os filhos achavam engra\u00e7ado. Os vizinhos tamb\u00e9m. A mulher j\u00e1 se acostumara. Exc\u00eantrico, maluco&#8230; Mas ele n\u00e3o ligava. Podia chover cair raio e coisa e tal. E l\u00e1 ia ele, sempre, todos os dias. Subia no muro, abria os bra\u00e7os e respirava. Respirava tudo e todos. Depois caia dentro do trabalho. Dedos vibrantes, olhos que faiscavam letras, frases, id\u00e9ias, conceitos, contos, artigos, livros, resenhas, escrevia o mundo. Mas n\u00e3o o mundo exato. Criava o mundo. Criava. Era senhor do muro. E da borda estava em contato com os fluxos e energias, e re-criava. E era muito bom. <\/p>\n<p>Um dia um dos filhos perguntou \u201cPra que t\u00e3o alto pai?\u201d e ele disse \u201cPra poder voar.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de ralar o joelho no muro e por fim em p\u00e9 na borda, equilibrando o pequeno corpo entre o cair e n\u00e3o; de bra\u00e7os abertos respirando fundo, teve a primeira vis\u00e3o do mundo al\u00e9m dos limites do p\u00e1tio. E os olhos-brilhando luz e festa e medo, puderam ver. O depois. 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