{"id":10969,"date":"2010-10-09T12:31:15","date_gmt":"2010-10-09T17:01:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=10969"},"modified":"2010-10-09T12:31:15","modified_gmt":"2010-10-09T17:01:15","slug":"lobo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2010\/10\/09\/lobo\/","title":{"rendered":"Lobo"},"content":{"rendered":"<p>Todas as pris\u00f5es s\u00e3o o corpo. A limita\u00e7\u00e3o do corpo. O espa\u00e7o delimitado do corpo. A carne o osso e o passo t\u00edmido da perna exata.<br \/>\nA pris\u00e3o \u00e9 a cama a pe\u00e7a e a casa. A cerca e o espa\u00e7o que te tra\u00e7a.<br \/>\nNos livros as tra\u00e7as. Letras e mais letras, palavras, verbos, versos, universos. Mesmo assim preso. Mesmo assim ref\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es da carne sua.<br \/>\nSobre a mesa o espesso volume. Moby Dick. Ahab. O oceano.<br \/>\nCivilizado. Docilizado. Afrouxou a gravata. Forca est\u00e9tica de v\u00e1rias cores e tecidos.<br \/>\nO respirar do corpo al\u00e9m do n\u00f3.<br \/>\nO copo de u\u00edsque pela metade. Dois icebergs flutuando. O degelo. O gelo.<br \/>\nRasgam o t\u00e9dio, a moral, as normas, as ordens. O real.<br \/>\nUm sorriso se desenha em l\u00e1bios que n\u00e3o sorriem. Mais. O \u00e1lcool \u00e9 o segredo para o outro mundo. Dimens\u00e3o outra. Imensid\u00e3o.<br \/>\nO corpo aperta uma tecla e Nei Lisboa canta s\u00f3 para ele :  \u201cSeremos sempre assim, sempre que precisar. Seremos sempre quem teve coragem. De errar pelo caminho e de encontrar sa\u00edda. No c\u00e9u do labirinto que \u00e9 pensar a vida. E que sempre vai passar por a\u00ed\u201d<\/p>\n<p>Pensar a vida. Errar pelo caminho&#8230;<br \/>\nOs passos levam o corpo \u00e0 janela. O vidro pro\u00edbe o ar. A vis\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s, filtrada, controlada. Os olhos da casa. N\u00e3o olham para fora; mas para dentro.<br \/>\nH\u00e1 ningu\u00e9m. Todos que n\u00e3o est\u00e3o. Mem\u00f3rias. Imagens. Rostos. A\u00e7\u00f5es. Tudo perdido nos jorros de tempo de Cronos.<\/p>\n<p>Civiliza\u00e7\u00e3o. Ao final do bra\u00e7o a m\u00e3o e seus dedos. Unhas aparadas e polidas. M\u00e3o enfraquecida. Bra\u00e7o cansado. Os p\u00e9s cobertos por objetos de couro. Lustrosos e macios. O p\u00e9?<br \/>\nSentado desamarra o sapato. A meia escura. Agora a vis\u00e3o do p\u00e9. Todos os dedos. Sorri. N\u00e3o \u00e9 sempre que observa o pr\u00f3prio p\u00e9. Meche os dedos. Boa sensa\u00e7\u00e3o. Um p\u00e9 esbranqui\u00e7ado, sem vida. Sem cor. Ao lado o sapato observa, guarda, vigia. Pronto para enclausurar novamente. Proteger, cuidar, colocar o p\u00e9 ao lado de tantos outros. Cal\u00e7ados.<\/p>\n<p>Eles voam. Primeiro um. Depois o esquerdo. Na rua j\u00e1 escura estatelam-se. Sr\u00e3o os p\u00e9s de um mendigo qualquer. Um homem que mendiga passos certos e exatos.<\/p>\n<p>A casa est\u00e1 surpresa. Em sil\u00eancio. Presente algo. As paredes vibram silenciosas. Portas e janelas est\u00e3o anciosas e asustadas. Ent\u00e3o a casa oferece o quarto, cama grande e macia, ar condicionado, televis\u00e3o; seduzir. \u00c9 o que o carcereiro pensa. Seduzir o homem. N\u00e3o? Ainda n\u00e3o? A cozinha. Geladeira repleta; queijo fatiado, presunto, galinha, yogurtes, cremes, doces, bebidas&#8230; n\u00e3o?<\/p>\n<p>A \u00e1gua lava o corpo em rios. Rios que escorrem pela carne. Pelo rosto. N\u00e3o? S\u00e3o l\u00e1grimas? Salgadas?<\/p>\n<p>Nu. Assopra as luzes. A escurid\u00e3o. Do outro lado a noite. A casa j\u00e1 n\u00e3o tem poderes. As paredes s\u00e3o apenas ilus\u00f5es. As narinas buscam todos os odores. Todos os cheiros que se mesclam confundem. Os olhos dilatam-se. Buscando nas dist\u00e3ncias aquilo que n\u00e3o se v\u00ea. A casa n\u00e3o \u00e9 mais nada.<\/p>\n<p>E a noite clama. A noite chama. E ent\u00e3o \u00e9 ela. S\u00f3. Redonda. Brilhante. Ele pensa na vida. Pensa nos sapatos. Nas portas. Nas roupas. Nas palavras doces, nas regras, nos detalhes&#8230; pensa nas filas, no cheiro de fuma\u00e7a&#8230; e vomita. Vomita sua civilidade. Pela garganta. Peda\u00e7os de uma vida em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>E ele urra. E uiva. E salta. A f\u00faria \u00e9 o caminho. O desatino. E atravessa o vidro que corta. E o sangue que escorre. O cheiro, o gosto da vida.<\/p>\n<p>Do outro lado da casa a noite o apara, o acolhe. E ele corre. Pernas que n\u00e3o s\u00e3o as mesmas. Cora\u00e7\u00e3o outro. For\u00e7a que invade cada c\u00e9lula, cada mol\u00e9cula.<br \/>\nSelvagem. Entre os carros. As pontes. Os homens. O medo, o susto. O p\u00e2nico.<br \/>\nFera. Suor. Escorrendo abundante, expurgando todos os medos, todos os anseios. Musculatura que salta sobre cercas. Se lan\u00e7a sobre \u00e1rvores, arbustos. Prazer animal. A terra no p\u00e9, o vento pelas narinas, os olhos engolindo tudo, devorando toda uma vida que passa. O campo. As \u00e1rvores. A mata. O uivo. O grito. A f\u00faria se espandindo sonoramente como uma onda que vai arrasando tudo e todos. Depois o sil\u00eancio. Depois os coment\u00e1rios. Depois a vers\u00e3o oficial, depois a mentira. Depois o exagero, depois a lenda. Depois o tempo. Depois as cal\u00e7adas. Depois os pr\u00e9dios. Depois o a\u00e7o e o vidro, depois&#8230; depois &#8230;<\/p>\n<p>ronie von rosa martins<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todas as pris\u00f5es s\u00e3o o corpo. A limita\u00e7\u00e3o do corpo. O espa\u00e7o delimitado do corpo. A carne o osso e o passo t\u00edmido da perna exata. A pris\u00e3o \u00e9 a cama a pe\u00e7a e a casa. A cerca e o espa\u00e7o que te tra\u00e7a. Nos livros as tra\u00e7as. 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