{"id":10967,"date":"2010-10-09T11:14:14","date_gmt":"2010-10-09T15:44:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/?p=10967"},"modified":"2010-10-09T11:14:14","modified_gmt":"2010-10-09T15:44:14","slug":"espreita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.panfletonegro.com\/v\/2010\/10\/09\/espreita\/","title":{"rendered":"Espreita"},"content":{"rendered":"<p>O cigarro j\u00e1 come\u00e7ava a esquentar seus dedos. Gostaria de se incendiar literalmente e acabar com aquilo de uma vez por todas. Esperar. Observar. Conhecer. J\u00e1 estava cansado. Sua vida nada mais era que peda\u00e7os de tantas vidas que observara. Sempre \u00e0 espreita.  Sugando a vida alheia. Os detalhes, a sordidez, as pequenas alegrias, as  dores. A trai\u00e7\u00e3o. Todos tra\u00edam. De uma forma ou de outra a ra\u00e7a humana era traidora. E pagavam para ele observar e contar. Relatar os fatos.<br \/>\nNoite. Sentado ao volante do carro lan\u00e7ou a bagana do cigarro pela janela. O pequeno b\u00f3lido incandescente tra\u00e7ou uma curva no ar e morreu no ch\u00e3o cuspindo algumas fagulhas do antigo brilho. Morte.<br \/>\nTodos queriam ter certeza. Interiormente j\u00e1 a tinham. Todos que o contratavam sabiam. Mas precisavam de provas. \u201cTraga-me a certeza!\u201d ent\u00e3o ele saia para as noites. Farejando as humanas falhas, os deslizes, as fraquezas.<br \/>\nEncheu o copo da t\u00e9rmica de caf\u00e9. Bebeu um grande gole. Muito doce. Mas gostava. Gostava das coisas doces&#8230;<br \/>\nDe dentro da escurid\u00e3o e do sil\u00eancio da rua, o cachorro aproximou-se e urinou na roda do carro. Ele sorriu. Gostaria de ser um cachorro e urinar  em algu\u00e9m. Mostrar que n\u00e3o estava nem a\u00ed para nada, recusar um trabalho&#8230; mijar no p\u00e9 de um idiota qualquer.<br \/>\nDe s\u00fabito voltou suas aten\u00e7\u00f5es para a casa. Movimento. Levemente a porta abriu-se, uma sombra masculina parecia beijar um vulto que n\u00e3o saia \u00e0 porta. Sem o acender das luzes ganhou a rua. M\u00e3os no bolso, cabe\u00e7a baixa.<br \/>\nEra ele sim. J\u00e1 tinha fotos e grava\u00e7\u00f5es suficientes para comprovar. A mulher estava \u201cfrita\u201d.<br \/>\nO marido viajando \u00e0 neg\u00f3cios e ela ali, aproveitando a vida com o advogado da fam\u00edlia.<br \/>\nTentou sentir alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o ao fato. Nada. Raiva: o homem trabalhando e a vagabunda fazendo aquilo&#8230; Nada. N\u00e3o conseguia sentir nada. O marido podia ser um cr\u00e1pula, podia bater na mulher, e esses escapes era a \u00fanica forma dela \u201cviver\u201d&#8230; Nada. N\u00e3o conseguia se envolver mais. A vida dos outros come\u00e7ava a acabar para ele. J\u00e1 n\u00e3o havia nenhum prazer.<br \/>\nEstava morrendo. Se vivia atrav\u00e9s dos pequenos estratos de vida dos outros, ent\u00e3o agora estava morto.<br \/>\nApanhou a foto da mulher de dentro de um envelope. Mulher bonita, uns trinta e sete anos, olhos tristes e boca sensual. Lembrou do rosto do marido. Homem sisudo e arrogante. Acostumado a mandar. Sobrancelhas espessas e sorriso debochado. Apanhou a foto do advogado. Rapaz jovem e alegre, um olhar que denotava algo de presun\u00e7oso&#8230; Levantou o rosto para o espelho do carro. Olhou-se. Nada.<\/p>\n<p>No outro dia o marido recebeu um envelope estranho. Um cheiro estranho exalava de dentro. Abriu o envelope  enojado e sufocado pelo cheiro. Puxou de dentro algumas fotos e documentos avariados, todos manchados e molhados. Nada podia ser lido ou visto. \u201cMas o que \u00e9 isto?\u201d Pensou.  Apanhou o telefone. Discou o n\u00famero que sabia de cor. \u201cO que \u00e9 isso?\u201d \u201cNada.\u201d Foi a resposta do outro lado da linha. \u201cEstou saindo.\u201d<br \/>\n\u201cSeu filho da P&#8230;\u201d O cheiro come\u00e7ava a empestear a sala. \u201cQue cheiro horr\u00edvel \u00e9 esse?\u201d<br \/>\n\u201cMijo.\u201d<\/p>\n<p>ronie von rosa martins<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cigarro j\u00e1 come\u00e7ava a esquentar seus dedos. Gostaria de se incendiar literalmente e acabar com aquilo de uma vez por todas. Esperar. Observar. Conhecer. J\u00e1 estava cansado. Sua vida nada mais era que peda\u00e7os de tantas vidas que observara. Sempre \u00e0 espreita. Sugando a vida alheia. 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